De Cessatione Naturae sub Puritate Terminum
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De Cessatione Naturae sub Puritate Terminum


Assim se revela a diferença entre o poder absoluto e o poder ordenado de Deus: no primeiro, Ele pode tudo quanto não é contraditório; no segundo, Ele ordena tudo segundo a medida da sabedoria. 

A cessação relativa das naturezas criadas, sendo ato de Deus e não da criatura, constitui um dos mais sublimes testemunhos da simplicidade divina. Pois se Deus é ato puro e Sua vontade é idêntica à Sua essência, segue-se que o modo pelo qual Ele suspende uma operação natural não implica mudança em Si, mas mudança nas relações das causas segundas sob Seu governo. A cessação não é anulação, mas direção; não é contradição, mas subordinação. Por isso, ao suspender a ação ordinária de uma natureza, o Criador não retira dela o ser, mas apenas limita-lhe o exercício de acordo com o fim superior decretado. Assim, a pureza do termo “cessação” deve ser entendida como repouso imposto pela sabedoria, e não como dissolução imposta pela violência.

Deve-se notar que todo ato natural subsiste dentro da providência, e que mesmo quando o fogo cessa de queimar, ele permanece fogo, porque a essência não é afetada pelo decreto que regula sua ação. A operação cessa, mas o ser permanece; o movimento é contido, mas a potência subsiste. Assim se revela a diferença entre o poder absoluto e o poder ordenado de Deus: no primeiro, Ele pode tudo quanto não é contraditório; no segundo, Ele ordena tudo segundo a medida da sabedoria. A suspensão, portanto, é o exercício do poder absoluto dentro da harmonia do poder ordenado, e nisso consiste a perfeição da providência — que nunca abdica do governo, mesmo quando detém o curso do natural.

A distinção entre cessação e corrupção é necessária, pois a corrupção destrói a forma, enquanto a cessação apenas refreia o ato. O fogo de Babilônia não se extinguiu; permaneceu aceso e ardente, mas ineficaz contra os servos do Altíssimo. Assim, Deus demonstra que pode impor limite à força dos elementos, e que nada subsiste fora do alcance de Sua voz. “Bendito seja o Deus que enviou o seu anjo e livrou os seus servos” (Dn 3:28), pois na obediência do fogo vê-se a liberdade do Criador. O ser não se contradiz quando o poder o suspende, porque a cessação é expressão da dependência ontológica da criatura.

A pureza terminológica exige ainda distinguir entre cessação formal e cessação final. A primeira diz respeito ao exercício momentâneo da potência natural; a segunda, à finalidade do ato segundo o desígnio divino. No milagre, ambas se unem, pois Deus cessa a operação e muda a direção do fim, fazendo que o meio se submeta a uma intenção superior. Assim, o fogo não aquece, mas ilumina; o leão não devora, mas guarda; a mula não relincha, mas fala. A cessação torna-se então instrumento de revelação: o elemento é calado para que a voz de Deus ressoe através do silêncio da natureza.

A razão humana, ao contemplar tal suspensão, deve reconhecer que o poder de Deus não é acréscimo à natureza, mas fundamento de toda ordem natural. Pois se o fogo arde, é porque Deus o sustém; se o fogo cessa, é porque Deus o ordena. “Ele faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1:11), e nessa ordem não há fragmentação, mas unidade. A pureza do termo “providência” consiste precisamente nisso: na permanência da causa primeira em todos os modos de operação das causas segundas, quer ordinárias, quer extraordinárias.

Não é, pois, lícito afirmar que o milagre contradiz a natureza, mas antes que o transcende, e o transcende sem a destruir. A cessação é uma suspensão da manifestação ordinária da ordem, não da própria ordem. Assim como o músico que pausa uma nota não destrói a melodia, mas acentua o ritmo, assim Deus, ao deter o fogo, acentua a harmonia de Sua glória. A cessação é pausa teológica no concerto da criação, pela qual o Autor se torna visível em Sua arte. Por isso, os milagres são chamados opera Dei revelata, pois neles o oculto se manifesta na economia do tempo.

A objeção dos naturalistas, que afirmam ser o milagre uma violação das leis naturais, é dissolvida na luz da distinção pura: pois se as leis são expressão da vontade divina, o que pode haver de contraditório quando o próprio Legislador as suspende por um instante? O que cessa é o efeito, não a ordem. A lei permanece, mas o Legislador a aplica de modo extraordinário, sem incoerência. “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4:41). Assim, o milagre é a obediência da natureza a um mandamento particular, e não a revolta de uma força cega.

Devemos também compreender que a cessação é pedagógica. Deus, ao conter as potências, ensina que o homem não deve adorar a criatura pelo vigor que nela vê, mas pelo Criador que nela age. O fogo, o vento e o leão tornam-se, então, mestres silenciosos da teologia natural, pois mostram que todo poder visível depende do invisível. Essa é a pureza do termo “milagre”: sinal, e não espetáculo; revelação, e não surpresa. A fé, e não o assombro, é o fruto que dele procede.

Ainda, a cessação revela a misericórdia, pois em cada suspensão natural há um desígnio redentivo. Quando Deus impede o curso da morte ou da destruição, Ele demonstra que o tempo pertence à Sua graça. “Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado algum remanescente, já seríamos como Sodoma” (Is 1:9). A cessação, portanto, é forma de longanimidade: o curso natural que deveria seguir é detido, para que o decreto salvífico se cumpra no tempo devido.

A cessação natural é também instrumento de juízo. Pois se Deus detém o fogo para livrar, também o sol deteve sobre Gibeão para punir (Js 10:13). Em ambos os casos, a ordem natural é submissa à ordem moral. A pureza do termo “providência” inclui tanto a conservação quanto a execução do juízo. Nada escapa à causalidade divina, e todo evento, seja benéfico ou terrível, é meio da glória eterna.

Além disso, a cessação ensina a transcendência da causa primeira. Nenhum anjo ou criatura pode conter o fogo ou abrir a boca de uma besta, senão Deus, que é Senhor das essências. Assim, o milagre não é apenas evento, mas revelação de domínio. O fogo obedece não porque entende, mas porque é sustentado; e nisso consiste a diferença entre o poder divino e a necessidade natural.

A pureza do termo “suspensão” exige também exclusão de qualquer mutabilidade em Deus. O que muda é o efeito, não o Autor. “Deus não é homem para que minta, nem filho do homem para que se arrependa” (Nm 23:19). Assim, a cessação é manifestação temporal de uma vontade eterna.

De modo consequente, a cessação natural deve ser contemplada como sinal escatológico. Pois quando o fogo não queima, a fera não devora, e a morte não prevalece, Deus indica que a ordem presente é transitória e que virá um estado onde as naturezas obedecerão perfeitamente sem resistência. A pureza do termo “cessação” aponta, pois, para o repouso eterno da criação sob a glória de Deus.

Conclui-se, enfim, que a cessação natural é o vértice da dependência criada. Deus, que dá o ser, pode suspender o agir; e, ao fazê-lo, não destrói, mas confirma que todo ser é contingente n’Ele. A natureza, ao silenciar, proclama. E assim, sob puritate terminum, compreendemos que toda suspensão é uma palavra de Deus, e todo milagre, um eco visível da eternidade no tempo.


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