A Ordem de Deus a Caim: Livre Arbítrio ou Graça?
Colunas

A Ordem de Deus a Caim: Livre Arbítrio ou Graça?


"O pecado jaz à porta, mas você deve dominá-lo." Lembro da primeira vez que ouvi essa frase em um culto de adolescentes. O pastor bradava com convicção: "Vocês podem vencer o pecado!" Do outro lado da cidade, num seminário reformado, outro pregador citava o mesmo verso para provar exatamente o oposto: "Veem? Deus ordena o impossível para nos mostrar que precisamos Dele." Dois homens, uma Bíblia, conclusões opostas. Quem está certo? Ou será que ambos estão errados?

Caim estava diante de uma porta. Deus lhe dá um aviso, quase um conselho paternal: domine o pecado antes que ele te domine. Parece simples, não? Mas aí mora o problema — ou a beleza, dependendo de como você encara mistérios teológicos. Se Caim podia dominar o pecado, por que não o fez? Fraqueza momentânea? Escolha má? Ou talvez... nunca pôde de verdade? Os reformados diriam que o texto prova nossa incapacidade; os pelagianos, que prova nossa responsabilidade. Ambos leem o mesmo verso. Ambos encontram suas respostas. Eu fico aqui me perguntando se Deus não estaria, talvez, dizendo algo que escapa das nossas categorias teológicas tão bem arrumadas.

pelagio

O que me intriga não são as respostas, mas as certezas. Pelágio foi condenado como herege em 418 d.C. por dizer que o homem pode obedecer a Deus sem graça especial. Séculos depois, igrejas inteiras se dividem entre "você pode escolher Jesus" e "Jesus te escolheu primeiro". Debates acalorados, livros volumosos, seminários repletos. E Caim? Caim continua ali, parado diante da porta, com o pecado agachado, pronto para atacar. A ordem ecoa: "domine-o". Mas ninguém pergunta a Caim o que ele sentiu naquele momento. Ninguém sabe se ele tentou e falhou, ou se nem tentou porque já sabia que falharia.

Talvez o texto não seja uma prova de capacidade nem de incapacidade. Talvez seja apenas... uma porta. E como toda porta, ela nos deixa de frente com uma escolha — ou com a ilusão de uma. "Você deve dominar" soa como ordem, convite, desafio, ou profecia? Depende de quem lê. Os séculos passam, as correntes teológicas se multiplicam, e eu continuo achando fascinante que um verso tão curto possa carregar peso suficiente para dividir a cristandade. Será que Deus sabia que faríamos isso com Suas palavras? Será que Ele sorri, balança a cabeça, ou apenas aguarda o dia em que pararemos de brigar sobre portas e simplesmente aprenderemos a atravessá-las? Não sei. Honestamente, não sei.

Crônica de um dia de domingo

Grupo de Whatsapp - clique aqui


Compartilhe:

0 Comentários

Seja o primeiro a comentar!
Deixe um comentário